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domingo, dezembro 10, 2006

Crônica (Laélio Ferreira)

O mercador de sonetos

Mílton Homem de Siqueira era de família importante, tradicional, fidalga. Irmão de Esmeraldo e Oscar Siqueira. O primeiro, professor, médico, poeta, uma das maiores culturas do Estado, uma espécie, em termos literários e filosóficos, de irmão siamês do meu pai, Othoniel Menezes. Oscar, o outro irmão, homem seriíssimo, desembargador, jurista de renome, grave, sisudo. Milton, coitado, foi a ovelha negra da família.

Menino - aos cinco, seis anos, por aí, papai, vez por outra, levava-me - eram tempos de guerra - à base de Parnamirim Field, onde trabalhava. Na "sopa" (leia-se ônibus), no caminho, apontou-me, certa feita, um homem com um enorme chapelão de palha, detento no Esquadrão de Cavalaria - prédio que ficava onde hoje é a Escola Doméstica de Natal. Era Mílton Siqueira.

Assassinara, a facadas, barbaramente, uma infeliz prostituta no Areal, com requintes de selvageria. Arrumou-lhe o corpo ensangüentado, cobrindo-o com trapos e saiu, como se nada tivesse acontecido, para beber cachaça nas Rocas. Antes disso, fizera uma palhaçada com Othoniel e com o próprio irmão, Esmeraldo. Ambos tinham um curso de francês para moças ricas e jovens estudantes do belo idioma de Hugo na Rua XV de Novembro (depois virou puteiro, a rua, ressalvo). Mílton, embriagado, da janela da sala de aula, na rua, passou a criticar e a ofender aos dois mestres - que, segundo ele, exploravam a boa-fé dos pais dos alunos, não sabiam francês, etc., etc. Não deu outra: Esmeraldo e Othoniel quebraram-lhe as ventas.

Na maior cara-de-pau, saiu Mílton para a Tavares de Lira e no famoso Bar "Cova da Onça", subindo num tamborete, fez inflamado discurso contra os "agressores". Na peroração exaltada, não deixou de pedir aos fregueses da casa um "auxílio financeiro para curar os ferimentos" - ou seja, para continuar a encher a cara nos botecos do Beco da Quarentena. O certo é que, enquanto durou o curso de francês dos dois poetas amigos, nunca mais apareceu, deu às caras, lá pela XV.

Por volta de 1948 - lembro mais vivamente -, egresso da prisão, meio desconfiado, cheio de vênias, apareceu lá por casa (morávamos na Rio Branco). Vinha com um livro de versos (era bom poeta) para Othoniel prefaciar. Foi bem recebido, conversou sobre literatura e pediu para voltar dentro de uns quinze dias, para receber a encomenda, o tal antelóquio - coisa que Othoniel não gostava de fazer, mas consentira, penalizado.

Não tinha mesmo jeito o homem. Dois ou três dias após, apareceu “puxando fogo”, embriagado. Meu velho já fechou a cara, aborrecido. Loquaz, valentão, Mílton caiu na besteira de, na frente de mamãe, de mim e de um irmão mais velho do que eu um ano, no meio da conversa fiada, puxar da cintura e exibir, acintosamente, para se mostrar, por certo, uma pistola de fogo-central - aquela de dois tiros e uma carreira. Não deu outra: Othoniel, de bengala em punho, botou o rebento dos Siqueira pra correr com pistola e pernas pra que te quero, ladeira abaixo, no azimute da Ribeira velha de guerra.

O tempo passou e passei eu muitos anos fora de Natal. Quando vinha, de férias, ouvia, no Grande Ponto, notícias - muitas delas jocosas - das presepadas de Mílton.

Depois, de volta à taba, cheguei a comprar-lhe sonetos na calçada do Café São Luiz. Tinha a fama de pedófilo, de pederasta depois de velho. Tenho por cá, no bestunto, a impressão de que fazia isso para chocar à opinião pública e, principalmente, para ofender os parentes, os irmãos.

Sei, também, por outro lado, que era ajudado - sem que o marido soubesse - pela esposa de Esmeraldo, Íris, uma santa criatura, vivinha-da-Silva, irmã do meu amigo João Meira Lima (desembargador, falecido), mãe do poeta e tribuno Juliano e de Mano Siqueira, este, cirurgião-dentista e o último cavaleiro andante desta terra de Poti. E eu os peguei no colo, quando meninos, bebês, na Rua Felipe Camarão, numa Natal sem Carnatal, graças a Deus! – Faz tempo...

É verdade e dou fé.

Laélio Ferreira, repórter aposentado e poeta

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